Eu encontrei esse texto em minha leitura diária e decidi inserí-lo na seção Cultura deste blog. Espero que considerem proveitoso pra sua leitura.

sai e postei-me como espectador
frio
indiferente
sem desejos

olhando pelas frestas
neste mundo de mar
de algas
onde as pessoas sempre trafegaram certezas e ódios
onde as ruas silenciadas de noite
abrigavam os cães e os répteis

sai e nunca vi os braços serem estendidos
não tive irmãos ou homens para abarcar
nunca procurei cativar espelhos

sai enfiado nos saltos de sapatos deslustrados
e não comunguei da esperança de ser bafejado

após o tempo certo das águas
do nada
a inesperada força do mundo deixou-se entrar
e meus braços e cabeça e testículos
como um só elemento
parte desse meu todo esfacelado
penetrou
-penetraram em minha visão nova-
e então brotou das calçadas
do mar
das paredes da minha casa sem alma

uma alma branca
de carne e ossos
desejável
destemida
colocou-me frente-a-frente
com a terra acolhedora
e seus braços estenderam-se e sorriram
tornado-me um outro homem

feito de plumagem mágica
naveguei outras ambições
e todos os temores ficaram distantes

abri-me diante do mundo
e ate o céu curvou-se diante de meus novos horizontes
e até Eros abdicou de suas pretensões
e permitiu que eu reinasse em seu lugar
absoluto
impoluto
impávido

construí templos e razões
tornei-me forte

as suaves ondas do vento
a luz
as sementes fluíam
os bosques davam e recebiam
o homem ao abrigo da intempéries fez-se homem
refeito
rarefeito
impávido

o outro corpo fez-se igual ou mais que complemento
e suas asas de veludo trouxeram-me a calma

o tempo vai forjando novas certezas
e então o novo já é outra coisa
e os outros também já são outros

o que eu não possuía passou a pertencer–me
começou a ficar subjugado

seus gestos já estavam tolhidos
a liberdade encurtava
e dava razão à posse

como poste cravado para servir de esteio
desdenhei do convencionado e passei a ser déspota

meu amor do outro lado já era amor só meu
sua estrutura deixara de respirar
ninguém a atingia com uma deferência
ninguém se aproximava
tornei-a calada e escrava

vieram dias e vieram noites
e o tempo
imperceptível no principio
trovejou imprecações de tempestades

nada ouvi
nada senti
até que lobos romperam os cercados e atacaram-me
rasgaram-me
roeram-me
os lobos fizeram-me retroagir ao estado original

estou diante do mar
vendo as pessoas passar
cães e bichos de outras raças
cultivam a minha solidão
em seus olhos de feras…

Artigo por: Versos inconclusos
O assunto Cultura é bem extenso e, neste caso, alvo de muitas publicações pela internet. Acredito que possa ter contribuído de alguma forma.